Mãe solo: o depoimento de duas mulheres que criam seus filhos sem os pais

Mãe solo: o depoimento de duas mulheres que criam seus filhos sem os pais

Conheça os desafios e alegrias de mães que não contam com um parceiro na criação dos respectivos filhos

Se ser mãe já é uma tarefa bastante complicada com a participação efetiva do pai da criança, imagine sem ajuda. Apesar da visão romantizada da maternidade, na qual as mães sempre contam com o apoio do parceiro na criação dos filhos, as estatísticas mostram que a realidade de muitas mulheres brasileiras não é só diferente, como cresceu o total de lares uniparentais, isto é, com mãe e sem pai. Segundo dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), o número de famílias compostas apenas por mulheres e seus filhos passou de 10,5 milhões para 11,6 milhões entre os anos de 2005 e 2015.

São mulheres que, por opção própria ou não, criam seus filhos sozinhas, contando com pouca ou nenhuma participação do pai de seus filhos. Em comemoração ao Dia das Mães, o Clickbebê colheu o depoimento de duas dessas mulheres. Uma delas não pôde contar com a participação do parceiro, enquanto a outra escolheu engravidar por meio da técnica de fertilização in vitro, utilizando uma doação de sêmen.

As duas mães falam sobre suas vidas, escolhas e desafios, provando que ser mãe-solo – termo que vem sendo usado para definir essas mães mais adequadamente do que ‘mães solteiras’ – pode até ser uma experiência mais difícil, mas não menos compensadora e completa.

Confira os dois depoimentos:
Denise Dias, 38 anos, terapeuta infantil, autora do livro “Produção Independente” (Editora Matrix) e mãe do Rafael, 1 ano e 3 meses
Mãe solo
Denise e Rafael/Arquivo pessoal

 

“Sempre quis ser mãe, mas jamais teria um filho com um marido se eu estivesse infeliz num casamento ou apenas para segurar um relacionamento. Pensava que se eu tivesse a sorte de estar com um cara legal, seria com esse cara legal. Como não aconteceu, aos 33 anos consultei uma clínica de fertilização em Ribeirão Preto, onde vivo, e com 34 anos congelei os óvulos. Depois, aos 36 anos, bati o martelo para a produção independente, por meio da fertilização in vitro e de um banco de sêmen.

Nunca tive dúvidas se conseguiria criar um filho sozinha e não pedi opinião para ninguém. Sempre fui muito dona de mim mesma, de opinião forte e cabeça feita. Comuniquei a minha família porque, se alguém fosse questionar a minha escolha, eu pensei que não iria querer lidar com isso durante a gravidez, e sim antes, pois queria paz enquanto estivesse grávida.

Só que eu não tive que lidar com absolutamente nada em relação a isso, muito pelo contrário! Minha família acompanhou vários namoros meus que não deram certo, então ela super me apoiou. Quando eu engravidei, foi de fato alegria total! Por outro lado, conheço mulheres que não recebem o apoio das respectivas famílias e sofrem com esta situação. É uma pena…

Gestação

Passei uma gestação plena e não senti dificuldade em não ter um parceiro. Honestamente, me conhecendo como conheço, eu creio que isso não vá acontecer. Claro que a preocupação e a responsabilidade financeira são muito maiores. Meu Rafael já tem previdência privada, eu sempre fui muito organizada financeiramente, e sou mais ainda, agora. É uma questão de responsabilidade. Acontece que às vezes um parceiro perde o emprego e o outro segura as pontas, e no meu caso, sou eu e eu.

Reações do bebê

Meu filho ainda é só um bebê, então eu não sei como ele vai reagir sobre não ter um pai. Imagino que possa ser um problema quando ele começar a ver que os amiguinhos na escola, o vizinho ou a priminha têm pai e, ele, não. Mas vou deixar para pensar nisso só quando acontecer.

Quando ele começar a perguntar sobre o pai, sempre vou responder com a verdade de acordo com a idade dele, com uma resposta que ele dará conta de entender. Costumo dizer que a criança simplifica, quem complica é o adulto.

Preconceito

Acredito que é muito mais aceito na sociedade o fato do pai ‘não existir’. Porque, no meu caso, o pai não existe e ponto. É diferente do homem que larga a esposa grávida, do pai omisso, do cara que se separa e não paga a pensão e só vê o filho por obrigação. Esse desgaste e esse desgosto, pelos quais muitas mulheres infelizmente passam, eu e meu filho nunca iremos passar.

Nunca sofri preconceito por ser mãe e não ter um parceiro, mas tenho dó de quem tentar me discriminar. Sou brava e muito orgulhosa do meu filho. Vou colocar a pessoa no lugar dela, com unhas e dentes. Mas já passei por situações em que a pessoa quer falar uma coisa legal e dá uma gafe, mas relevo, porque eu sei que não foi a intenção dela ser preconceituosa.

Livro “Produção Independente” (Editora Matrix)

Sempre gostei muito de escrever e queria passar aos outros a minha experiência. Recebo muitas mensagens de mulheres que estão pensando e se encorajando para fazer fertilização. Elas leem o livro e falam que choraram lendo, e eu também chorava escrevendo e ainda me lembro desses momentos.

Sou coruja, sou leoa, sempre fui. E depois que engravidei, virei o zoológico inteiro. Fico apaixonada com cada coisa que o Rafael aprende, me derreto. Felizes são os filhos cujos pais os enxergam, apreciam o seu desenvolvimento!

E não sou só eu que tenho sorte, porque ele é uma fofura, mas meu filho tem sorte também de ter uma mãezona como eu. Só posso dizer, como diz a música, que sou feliz e agradeço por tudo que Deus me deu”.

 

Jaíne Magalhães, 23 anos, vendedora, mãe de Felype, de cinco anos
Mãe solo
Jaíne e Felype/Arquivo pessoal

 

“Conheci o pai do meu filho na época em que trabalhava num mercadinho de bairro. Tinha apenas 16 anos, e como minha família era contra o namoro, eu fugi de casa para viver com ele. Aos 17 anos, já estava grávida.

Nós estávamos morando juntos, e quando anunciei a gravidez, ele aceitou. Mas pouco depois nosso namoro começou a se tornar um relacionamento conturbado. Ao mesmo tempo, começou a usar drogas, a ficar psicologicamente abalado ,e para ele, tudo era motivo para sentir ciúmes.

A situação das drogas foi piorando, começou a colocar coisas erradas na cabeça, dizia que o filho não era dele, mesmo eu não saindo de casa, porque era mantida por ele praticamente em cárcere privado, não podendo nem visitar a minha mãe.

Em seguida, começou a partir para a agressão, mesmo eu estando grávida. Passei então a sentir raiva dele, mas continuei lá porque não podia voltar para a minha casa, já que, como havia fugido, meus pais não me aceitavam mais de volta.

Registro do bebê 

Aguentei firme aquela situação complicada até que o meu filho, Felype, nasceu. Demorou seis meses para o pai assumir a criança e fazer o registro no cartório.

Quando o Felype ia completar um ano, eu consegui um emprego. Fui juntando dinheiro para poder sair da casa dele e conseguir um imóvel para alugar. Mas ele pegava todo o meu dinheiro e gastava com drogas. Meu pais, vendo a situação pela qual eu passava, me aceitaram de volta.

Eles me ofereceram apoio, mas eu deixei claro que queria criar o meu filho sozinha, afinal fui eu quem criei aquela situação. Nessa época, o Felype já tinha mais de um ano e, até então, o pai nunca havia pago pensão e não tinha deixado a vida de criminalidade. Ou seja, meu filho não recebe pensão e eu sempre o criei sozinha com o meu emprego.

Falta de apoio

Desde que o meu filho nasceu, eu já tinha percebido que não poderia contar com o apoio do pai. Mas não queria que meu filho sofresse; então, não dizia que ele não tinha um pai, mesmo querendo evitar que meu filho o visse. Por isso, não quis correr atrás de pensão e decidi não brigar na Justiça. Sabia que ele acabaria sendo preso por não pagar a pensão.

Ele via o meu filho nos fins de semana, de 15 em 15 dias. Mas quando a gente terminou, ele ficou meses sem vê-lo. Dizia que só viria o menino se a gente voltasse. Eu dizia sempre que não e pensava: ‘vou conseguir sozinha, vou sustentar meu filho, não vou depender dele’. Nunca tive dúvidas de que conseguiria criá-lo, sabia que ia conseguir. Coloquei na cabeça que eu poderia passar fome, mas meu filho não iria passar.

Muitas vezes o Felype ficou doente e eu tive que levá-lo ao hospital sozinha de madrugada ou à noite, saindo às pressas e tendo que pegar um ônibus, sabendo que o pai dele tinha carro e podia nos levar. Eu pedia e ele dizia não, que só ajudaria e faria o papel de pai se nós dois voltássemos. Eu respondia que, então, não precisava.

Julgamentos

Hoje em dia, o Felype pergunta porque eu não estou com o pai dele, e eu explico que não deu certo, que nós não nos dávamos muito bem juntos, que a gente brigava e se separou. E hoje em dia, meu filho não vê o pai, porque ele está preso.

Todo mundo me pergunta ‘nossa, você cria seu filho sozinha, mas e o pai dele?’ Em relação a isso, sinto machismo. Há tantas mães solo, que as pessoas nem se espantam mais. Mas e uma mãe ausente? Todo mundo ia julgá-la, com certeza! Não acho que haja o mesmo tratamento da sociedade para homens e mulheres.
Ser mãe

A melhor parte de ser mãe é o afeto, é sentir o verdadeiro amor e ser amada. A gente começa a conhecer esse novo sentimento e só penso em viver para o meu filho.

Já a parte mais difícil de ser mãe são as dores, não só as físicas. O meu filho pedir algo e eu não ter condições de dar ou ter de negar ou brigar com ele. Ter pulso firme ao chamar atenção, ou quando falo algo que magoa. Depois que eu tive um filho, entendi tudo o que minha mãe sofreu. A minha mãe já disse várias coisas que me magoaram e que me doeram muito, mas eu não sabia o quanto também doía nela ter de dizer aquilo.

Eu diria às mães que estão passando pelo que eu passei que, primeiramente, pensem nos filhos. Porque quando a mãe realmente ama o filho, ela consegue criar a criança com todas as suas forças.

Hoje estou grávida novamente, de oito meses, graças a Deus em um outro relacionamento. Mas quem sempre deu as coisas para o meu filho fui eu. Dependa apenas de si mesma, pois o seu filho precisa de você!”

Fonte: https://clickbebe.net/mae-solo-o-depoimento-de-duas-mulheres-que-criam-seus-filhos-sem-os-pais/