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Denise Dias – “Sem impor limites aos filhos, pais estão criando monstros em casa”

 

A terapeuta infantil diz que a “palmada leve, educativa” não é um ato de violência quando aplicada por pais como forma de impor limite

Você certamente já ouviu falar da “Lei da palmada”, um projeto de lei que propõe a proibição do uso de castigos corporais de qualquer tipo na educação dos filhos. O tapa é um deles. Mas, às vésperas do Dia da Criança, a pedagoga, psicopedagoga e terapeuta infantil Denise Dias, 31, acaba de lançar um livro pela Editora Matrix com um título que inclui sua proposta polêmica: “Tapa na Bunda”. Nele, crítica ferrenha da falta de limites dos pais na educação dos filhos, ela garante: “A falta de um tapa na bunda quando o filho ainda é pequeno está fazendo com que muitos pais levem tapa na cara quando os mesmos filhos se tornam grandes”.

Sua decisão de escrever um livro com um título tão polêmico partiu de quê? 

Do próprio trabalho que faço, da frequência com que escolas me chamam para dar palestras sobre limites, e, no consultório, também da quantidade de crianças com distúrbio de comportamento, crianças agressivas com os próprios pais. Levei para o livro as orientações que passo a eles.

Mas há um projeto de lei no país que proíbe castigo corporal à criança. 
Acho um absurdo que o projeto de lei proponha punição para pais que derem até uma palmada, leve, educativa, nos filhos. Equipara isso à violência, sendo que uma palmada educativa, quando a criança já extrapolou todos os limites, não é um ato de violência. Não falo em espancamento – puxar cabelo, jogar, bater no rosto da criança. Estou falando de um tapa na bunda…

Há quem diga que, com determinados comportamentos, tem criança que pede um tapa. A senhora concorda?
Sim. Mas nem todas precisam de um tapa. Há as que, quando não obedecem, pais ou o adulto cuidador responsável olham e dizem: “Êpa!”, e elas param na hora. Mas há as que não agem assim. Reagem, como se dissessem: “Êpa o quê? Quem você – pai, mãe, professora – pensa que é?” Vão além, desafiam, até o ponto que, de fato, precisam de um tapa na bunda. Olha, muitos adultos pecam porque ignoram como se dá o desenvolvimento cerebral, cognitivo de uma criança. Aos 4, 5 anos, ela não filosofa, não reflete com profundidade, não tem capacidade cognitiva, ainda, de formar abstração. Por isso, paga para ver. A mãe diz a ela: “Você vai cair e bater com a cabeça porque a piscina está sem água”. Mas, se der uma bobeira, ela se joga na piscina, porque quer ver o que acontece. Mais de 70% dos acidentes com crianças pequenas acontecem dentro de casa, e não adianta os pais falarem: “Não pode mexer aqui”. Elas fazem, elas mexem, e sentem a experiência literalmente pagando na própria pele. O tapa na bunda é a mesma coisa. Se os pais dão um tapa na bunda do filho quando ele tem 4, 5 anos, não será necessário fazer a mesma coisa quando ele tiver 10, por exemplo. Mas os pais de hoje em dia não se colocam como pais quando deveriam, dando bronca de verdade. Até porque “monstrualizaram” toda a educação familiar. Os pais não podem ser pais, têm que se abaixar para ficar na mesma altura da criança. Ora, isso é um absurdo! Pais não têm a mesma altura dos filhos, dentro de uma escala familiar. Estão acima, têm que dar ordens, têm o poder da palavra. São eles que dão a permissão, a autorização para a criança.

Há uma geração de pais que aprendeu que dizer não ao filho é antididático…
A geração dos pais entre 35, 40 anos, está perdida no quesito como educar um filho. Sabe por quê? Porque esses pais foram criados com muita liberdade. Já os pais dessas pessoas foram criados numa espécie de ditadura familiar.

No estilo faça o que eu mando, e não faça o que eu faço…
É isso. Os pais mais antigos agiam com uma rigidez muito grande. Batiam mesmo, com vara de cavalo, galho de goiabeira. E o que fizeram os que apanharam muito, que não tinham liberdade? Decidiram agir de forma diferente com seus filhos: liberaram geral. E essa atitude resultou numa geração de pais que está perdida, por pensar assim: “Meus pais liberaram geral e não deu certo; meus avós prenderam em excesso, e não deu certo também. O que faço agora?”

Qual é a sua orientação?
Buscar o equilíbrio. Os filhos se colocam no lugar de filhos quando os pais se colocam no lugar de pais. É óbvio que os pais mandam nos filhos. Hoje, o que acontece se você pega uma criança de 8, 9 anos de idade, e a solta na rua? Ela morre. Ela não sabe aonde ir, não sabe em quem confiar, não sabe o que deve e o que não deve comer… O filhote do ser humano é o bicho mais dependente dos seus pais, e o que mais demora para atingir maturação e independência com segurança. E se os pais não conseguem dar segurança aos filhos, quem vai dar? Ninguém. Vivemos numa sociedade com cada vez mais desvios, abusos – e nesse caso me refiro também à vida irresponsável que muitos jovens estão tendo hoje, inclusive de não se cuidar sexualmente, usando camisinha, porque acham que nada lhes vai acontecer.

Essa sensação não deriva do chamado pensamento mágico, que seria próprio do adolescente?
Não, isso é reflexo de falta de limite. Quando os pais dão limite aos filhos, eles falam: “Mocinho (ou mocinha), preste atenção! Chegue aqui. Você não pode fazer isso porque senão, como castigo, vai perder o cinema”. Isso é impor limite, como consequência de um ato. Olha, até nós, adultos, passamos por castigos e premiações com nossas atitudes. Então, por que um projeto de gente não vai passar por isso também?

No passado, criança não era levada em consideração. Depois foi resgatada, enquanto indivíduo, e passou a ter direitos assegurados por lei. A senhora vê o limite, simbolizado com o tapa na bunda, também como forma de respeito à criança?
Uma criança que passa fome, no nosso país, está sendo respeitada? A criança abusada sexualmente é respeitada? Uma criança que xinga os pais, que levanta a mão e até bate neles – e esses pais não fazem nada -, está sendo respeitada? Não. Ela precisa de contenção. No meu livro digo que muitos pais, hoje, estão criando monstros, que quando crescem, queimam índio, arrastam pelas ruas uma criança presa a um cinto de segurança, esquartejam amantes, batem em prostituta. E aí todo mundo entra em choque, perguntando: “Como tiveram capacidade de fazer isso?”. A maioria desses jovens, autores desses crimes, nunca teve limites. Se os pais permitem que os filhos cresçam se achando muito poderosos, chega uma hora, na adolescência, que eles crescem, e se acham maiores do que os pais, mais do que fisicamente. E aí, quando os pais percebem o dragão cuspindo fogo que têm dentro de casa, já é tarde demais.

Hoje, a escola também se queixa do comportamento violento de alunos.
Isso é reflexo da família. É claro que também existem escolas incapacitadas para transmitir valores, além de conteúdo. Mas, hoje, é muito comum que crianças fiquem na escola por tempo integral, porque os pais trabalham o dia todo. E aí, quando ocorre algum problema com a criança, eles querem culpar a escola. Mas, de maneira geral, o problema vem de casa mesmo.

Quais os reflexos na vida adulta da falta de limite na infância?
A maioria dos problemas emocionais, sociais, comportamentais dos adultos tem raiz no núcleo familiar. Crianças que passam por um processo terapêutico, quando apresentam problemas, têm maiores chances de esses problemas não as abalarem tanto 15, 20 anos mais tarde.

No processo de aprendizagem, quais são os reflexos?
Adultos com problemas emocionais não trabalham direito, não namoram direito, não vivem sua vida sexual com equilíbrio, não se alimentam direito. Crianças não aprendem direito e não brincam, não são crianças como deveriam ser. Sorte têm os pais se suas crianças “colocam uma sirene na cabeça” e chamam atenção para o problema que estão atravessando, como se gritassem: “Alguém me enxergue, alguém me ajude, por favor”.

Quais são os sinais? 
Cada pessoa tem uma válvula de escape. Alguns adultos, por exemplo, entram em vícios – excesso de álcool, de tabaco; compras em excesso, comportamento sexual de risco, dormir o dia inteiro – que pode sinalizar uma depressão. Algumas crianças manifestam agressividade, e em meninos isso é mais comum. Algumas são perfeccionistas ao extremo – são as princesinhas do papai. Há as que param de comer, outras que comem demais, e também as que simplesmente não aprendem. A agressiva tem uma sirene ligada na última potência, e apronta tanto que não tem como não enxergá-la. Com as mais serenas, muitas vezes, os pais acham que está tudo bem. E por causa de tudo isso, eu dou orientações aos pais pelo menos uma vez por mês, e cobro que eles sigam. Se percebo que não conseguem dar conta sozinhos, os encaminho para a terapia, principalmente se há conflitos na relação do casal.

Cite três “pecados capitais” dos pais. 
A pior coisa que podem permitir que um filho faça é que ele os agrida sem que os pais ajam diante dessa atitude. O filho que agride os pais agride o mundo. O que não tem respeito, que não baixa a cabeça para os pais, é arrogante. E isso tem reflexo na vida adulta. Outra coisa: nunca ameaçar com castigo que não possa cumprir. Fale para o filho: “Hoje você fica sem o Nintendo wii”; “Hoje você não vai ao parque de diversões”; “Amanhã você não vai ao aniversário da sua amiga”. É bom lembrar que castigos extremos não levam a nada – tirar presente de Natal, por exemplo, é violência. O terceiro erro é um desmoralizar o outro na frente da criança.

Falta do discurso único…
Sim. Se o pai está resolvendo uma situação com o filho, a mãe chega e não gosta do que vê, deve observar e aguentar a língua na boca. E só depois falar ao marido, reservadamente. Do contrário, o filho percebe a falta de lealdade entre o casal. Filhos precisam entender que pai e mãe ocupam o mesmo degrau na hierarquia, que falam a mesma língua.

Está preparada para a reação dos adeptos do não tapa ao seu livro?
Não tenho receio. O mundo está um caos, e a falta de limites é visível. Para que querer que prevaleça uma lei que não auxilia em nada o nosso dia a dia?

Publicação: 08 de Outubro de 2011 | gazetaonline.globo.com – Tapa na Bunda