Ensino decoreba

A cada escola que eu visito, a cada paciente que entra no meu consultório com queixas de problemas de aprendizagem eu me pergunto sobre os benefícios, os acréscimos de certos conteúdos nas vidas das pessoas e também, sobre a incoerência que há em alguns métodos de ensino e na forma de avaliar os alunos.

Isso tem início no início escolar mesmo: na educação infantil. Dizem que ensinam música, mas canções não são criadas, o ritmo não é desenvolvido, as letras simplesmente são decoradas. A criança que pinta o sol de verde e desenha a casa com telhado azul é logo recriminada, pois saiu do padrão, do conhecido, do real. E dizem que despertam a criatividade. Pra tudo há uma receita, um modelo a ser seguido, a ser decorado.

No dia-a-dia do consultório é muito comum os pais me perguntarem: “Tem problema o meu filho trocar ‘s’ por ‘z’?”. E eu sempre digo a eles o seguinte: certas questões nós ensinamos e aprendemos; mas há aquelas que são impossíveis de serem aprendidas, assimiladas pelo nosso cérebro. Tem que decorar mesmo, não tem jeito. Um exemplo rotineiro disso é o modo de escrever os nomes das pessoas que conhecemos. Há Denise (com “s”) e há Denize (com “z”). Há Souza e há Sousa. E quando os nomes têm dois L no meio, seguido de um Y e ainda com um H pra enfeitar mais ainda?! Ou então os sobrenomes holandeses, russos, alemães como Reifschneider, ou Schimidt, aí a coisa complica. Decorar faz parte da realidade.

E o mesmo acontece com certos conteúdos escolares exigidos pelo currículo organizado pelo MEC. Como entender que dinossauro é com ss e não com ç?! Como eu poderia explicar para um paciente que dinoçauro está errado se o som é o mesmo se escrito com ss? Como explicar a um paciente que navio é o correto, e não, navil ou naviu?! Não dá! Infelizmente eu sou obrigada a dizer que tem coisas que têm que ser decoradas, não tem outra solução.
E daí eu me pergunto (e gostaria muito da resposta caso alguém a tenha): o que é que acrescenta nas nossas vidas tirar 10 em uma prova que, em uma questão, pede para o aluno completar as palavras com ss, xc, ç, sc, s, x, z, na outra, para classificar as palavras em oxítona, paroxítona e proparoxítona e ainda na outra para assinalarmos as palavras que contém hiato?!

E as fórmulas de física, química e matemática?! Depois que eu acabei o meu 2° grau eu nunca tirei a raiz quadrada de nenhum número e nem me lembro pra que serve um logaritmo! E aquelas cadeias de carbono… Tem também as famílias dos metais!! A gente ficava (e os alunos de hoje ainda ficam) horas e horas inventando frasesinhas com as iniciais dos componentes químicos pra tentar decorar a ordem dos metais, dos ametais e de tudo o mais pra, na hora da prova, os que não fizeram cola, ter aquele branco e tirar um menos ao invés de um mais.

Não há aluno que agüente decorar tudo isso mais os seres procariontes e eucariontes da biologia, as datas e pessoas importantes da história e a vegetação de todo o planeta.

Com tal realidade só me resta dizer que as avaliações deveriam colaborar mais: permitir que os alunos tenham em suas mãos as fórmulas, a tabuada, a calculadora e o dicionário já que, o que se mede é o quanto se decora, e não, o quanto se sabe.